Pedro Giraldi foi o precursor a denunciar a formação do latifúndio do grupo Giacomet-Marodin em Quedas do Iguaçu
Documentos históricos revelados indicam que, entre 1980 e 1982, o então prefeito encaminhou sucessivos ofícios ao presidente João Baptista Figueiredo pedindo providências diante da concentração de terras e da crise social vivida pelo município.
Documentos históricos divulgados em um artigo publicado nesta semana no portal mst.org.br, de autoria da historiadora Juliana Valentini, professora do Instituto Federal do Paraná (IFPR), reforçam que o então prefeito de Quedas do Iguaçu, Pedro Alzide Giraldi, foi um dos primeiros agentes públicos a denunciar oficialmente a concentração de terras nas mãos do grupo Giacomet-Marodin.
De acordo com o estudo, ofícios policiais, processos judiciais e fotografias produzidos nas décadas de 1970 e 1980 registram a atuação de vigilantes contratados pelas empresas Maisonnave, Giacomet-Marodin e pela empresa de segurança Wackenhut do Brasil. Entre as práticas documentadas estão alterações ilegais de divisas, incêndios de moradias e disparos de arma de fogo, com o objetivo de expulsar moradores das áreas em disputa.
O levantamento também mostra que a concentração fundiária já despertava preocupação de representantes da política institucional da época. Entre 1980 e 1982, Pedro Giraldi, então prefeito de Quedas do Iguaçu e filiado à ARENA, encaminhou diversos ofícios ao então presidente da República, João Baptista Figueiredo, solicitando medidas para conter a expansão das propriedades do grupo empresarial.
Nos documentos, Giraldi afirmava que a empresa ocupava mais da metade dos 1.212 quilômetros quadrados do território municipal, além de denunciar supostas irregularidades na prestação de informações ao Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), o que, segundo ele, reduzia a tributação incidente sobre as áreas e agravava a situação econômica e social do município.
No Ofício nº 22/82, o prefeito fez um apelo ao governo federal:
"Rogamos à V. Exa. que nos volva seu olhar para Quedas do Iguaçu (...) que a metade [do latifúndio] seja desapropriada, colonizada e vendida a tantas famílias sem-terra e sem emprego, que passam até fome (...) O que será do nosso município? Com mais da metade de suas terras sem aproveitamento algum na mão de um grupo econômico que nem sequer em nosso estado reside."
Outro ponto destacado por Giraldi foi a situação do imóvel Campo Novo, também conhecido como Fazenda São Jorge. Segundo ele, os empresários teriam transferido parte das áreas para seus próprios diretores, prática que, segundo relatou, ocorria "aos olhos do INCRA, sem que este nada fizesse".
O prefeito fazia referência ao Decreto nº 84.604, de 31 de março de 1980, que desapropriou parte dos imóveis ocupados pela empresa, preservando, entretanto, as áreas de Rio das Cobras e Pinhal Ralo, exploradas pelo grupo Giacomet-Marodin.
Ainda conforme o artigo, mesmo após o imóvel Campo Novo ser reconhecido como patrimônio da União e declarado de interesse social para fins de reforma agrária, o grupo empresarial teria fragmentado e comercializado parcelas da área em extensão superior àquela declarada oficialmente.
Decisão judicial e regularização das áreas
Mais de três décadas depois das primeiras denúncias, em 2015, a Justiça Federal declarou a nulidade dos títulos de propriedade da empresa Araupel/Giacomet-Marodin, entendendo que a companhia não poderia ser indenizada pela desapropriação de terras consideradas patrimônio da União.
Atualmente, a região abriga o maior complexo de Reforma Agrária da América Latina. Um acordo firmado entre o INCRA, a União, a Araupel S.A. e a Rio das Cobras Ltda. estabeleceu a regularização dos lotes e a criação de três novos assentamentos, incorporando mais de 54 mil hectares ao Programa Nacional de Reforma Agrária na região Centro-Sul do Paraná.
O acordo encerrou uma longa disputa judicial envolvendo as áreas e representa um marco na política de regularização fundiária e reforma agrária no estado.
Fonte: Juliana Valentini é professora do Instituto Federal do Paraná (IFPR) e doutoranda no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). Integra a Red Internacional de Procesos Represivos, Empresas, Trabajadores/as y Sindicatos en América Latina (RIProR).
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